Conheça Gaules, o streamer brasileiro que faz sucesso na Twitch

O maior streamer do Brasil tem mais de 20 anos de experiência com jogos.

Foto via BLAST

Alexandre “Gaules” Borba Chiqueta é o maior streamer do Brasil e também um dos maiores do mundo. Ele foi eleito Personalidade do Ano e Melhor Streamer do Ano em 2020 pelo Prêmio eSports Brasil. Embora muitos jovens assistam ao seu canal, muitos não sabem sua história completa.

O streamer de 37 anos jogou Counter-Strike 1.6 profissionalmente, ajudou a alavancar a profissão de treinador no Brasil, investiu no setor e trouxe mais empresários para investir no setor de esportes eletrônicos. Desde o começo de 2018, também transmite campeonatos e suas próprias partidas e muitas vezes fica só na conversa com seus espectadores na Twitch.

Confira abaixo alguns dos principais momentos da carreira de Gaules.

Tempos de jogador

Gaules foi um dos primeiros jogadores profissionais de Counter-Strike 1.6 no Brasil. Em 2001, ele montou seu próprio time, G3nerationX (G3X), que viria a ser o primeiro time brasileiro a disputar um torneio mundial de CS 1.6 após se classificar para a World Cyber Games 2001 em Seul, Coreia do Sul. Apesar da participação modesta (7-8° lugar), a viagem abriu portas para mais investimentos no setor de esporte eletrônico do Brasil.

Enquanto jogava, Gaules chegou a ser eleito duas vezes o melhor jogador de CS 1.6 do Brasil nos anos 2000 e ajudou o G3X a conquistar títulos importantes, como a LatinCup 2004 e a CPL Brazil 2006 contra a MIBR, sua maior arquirrival na época.

Sua maior conquista, porém, viria já como treinador. Em setembro de 2007, Gaules fez um acordo com o dono da MIBR, o empresário Paulo “pvell” Velloso, e vendeu a escalação do G3X para os até então arquirrivais. Para dar espaço aos jogadores mais jovens, Gaules topou ser o primeiro treinador brasileiro de CS 1.6 e ajudou o time a se preparar para a DreamHack Winter 2007, que aconteceu em dezembro daquele ano na Suécia.

Carreira de treinador

Chegando em Jönköping, Gaules fez algo sem seus jogadores saberem. A MIBR estava classificada para começar o torneio no estágio principal, mas o treinador os fez jogarem a partir da etapa BYOC (Bring Your Own Computer), aberta para todos que estiverem participando da feira DreamHack.

A MIBR enfrentou adversários competentes na BYOC, tais quais os dinamarqueses do Spirit of Amiga (SoA), e avançou para o palco principal da DreamHack Winter 2007. Bruno “bit” Lima, Wellington “ton” Caruso, Thiago “btt” Monteiro, Olavo “chucky” Napoleão, Lincoln “fnx” Lau e Gaules estavam muito bem preparados e chegaram invictos até a final, passando por times como SoA, ROCCAT e o temido time da Fnatic, que estava jogando em casa.

Na final, o adversário seria o poderoso time da SK Gaming, que também estava jogando em frente a sua torcida e contava com verdadeiros craques do CS 1.6, como Kristoffer “Tentpole” Nordlund, Dennis “walle” Wallenberg e Abdisamad “SpawN” Mohamed. Naquela época, SpawN havia acabado de retornar para a escalação da SK e era considerado o melhor jogador do mundo por alguns especialistas.

Como a MIBR chegou até a final pela chave dos vencedores, precisava vencer apenas um mapa para sagrar-se campeã da DreamHack Winter 2007. Os brasileiros jogaram juntos o tempo todo, mostrando assim uma incrível disciplina tática, e conseguiram superar a SK Gaming, vencendo por 16-11 e trazendo o segundo título mundial de CS 1.6 para o Brasil. Ele treinou a MIBR por mais alguns eventos em 2008, até colocar sua carreira no esporte eletrônico em hiato para trabalhar na Samsung Brasil.

Criação da Seleção Brasileira de Games

Após pedir demissão da Samsung Brasil, em 2010, Gaules novamente voltou sua atenção para o esporte eletrônico brasileiro. Ele tomou a decisão depois de ter acompanhado a delegação da Complexity Gaming, então casa de Gabriel “FalleN” Toledo, na World Cyber Games 2010.

Durante a competição, Gaules notou que o esporte eletrônico brasileiro ainda estava muito atrás de outros países e decidiu começar projetos que poderiam alavancar o esports no Brasil. Um desses projetos foi a Seleção Brasileira de Games (SBG), que convocava os melhores jogadores de Counter-Strike, FIFA, entre outros jogos, e oferecia estrutura de treinamento, acompanhamento psicológico e assessoria de imprensa para os ciberatletas.

Além da SBG, Gaules idealizou outros projetos, todos com o intuito de alavancar o esports brasileiro: a Brazil Gaming League, a Agência X5 e a Mega Arena X5, que se tornou o maior espaço físico dedicado a modalidades do esporte eletrônico.

Depressão, começo da carreira de streamer e criação da Tribo

Em dezembro de 2017, Gaules passou pela pior fase da sua vida. Havia perdido suas empresas, fez investimentos que deram errado e foi diagnosticado com depressão severa. O ex-profissional de Counter-Strike se viu sem lugar para morar, perdeu a namorada e estava com a conta bancária zerada.

Foi assim que ele teve a ideia de vender um curso intitulado “Como realizar seus sonhos e se tornar um jogador profissional de games” e também começou a fazer lives na Twitch em seu apartamento recém-alugado. Quatro amigos, Alessandro “Apoka” Marcucci, Rodrigo “crash” Rodrigues, Igor “vip” Melro e Mee, contribuíram com a nova empreitada de Gaules, ajudando-lhe com dinheiro nos primeiros meses.

Gaules começou transmitindo apenas para poucas pessoas e conseguia arrecadar dinheiro para arcar com os custos de seu tratamento psiquiátrico. Seus telespectadores se tornaram sua família e receberam o título de membros da “Tribo”, que se tornou uma comunidade de apoio conforme Gaules foi ficando mais famoso.

“Todo esse lance da tribo e das coisas que aconteceram criaram essa comunidade, que para mim é minha família”, Gaules disse em uma entrevista para a ESPN Esports em 2018. “Há dois anos eu me afastei da minha família por várias questões e hoje vejo como é fácil ter empatia pela sua mãe e pelo seu pai. Difícil é ter empatia com pessoas que você não conhece e eu decidi ter empatia com essas. Eles acabaram virando minha família e hoje eu tenho a maior família do mundo”.

A partir de 2019, Gaules começou a formar parcerias com campeonatos de CS:GO e atualmente é dono dos direitos de transmissão de alguns dos maiores eventos da categoria, como a ESL Pro League, a DreamHack Masters e o circuito da BLAST Premier. Em 2020, anunciou o torneio “Tribo to Major”, que serviria para times sul-americanos juntarem pontos para um eventual Major, o campeonato de CS:GO patrocinado pela Valve, em 2020. Mas, devido à pandemia causada pelo COVID-19, o Major foi adiado para 2021 e os pontos angariados via “Tribo to Major” deixaram de valer.

Ajudando causas sociais e criação do próprio grupo de streamers

Quando Gaules conseguiu estruturar sua vida novamente, passou a dividir os lucros das doações e inscrições de seu canal com outras pessoas, como moradores de rua. Atualmente, seu canal na Twitch gera dinheiro suficiente para que o streamer possa contribuir com várias pessoas do Brasil inteiro, seja pagando medicamentos, contas como aluguel ou até mensalidades de faculdade.

Através de doações e dos seus próprios fundos, Gaules protagonizou grandes atos de solidariedade. Em 2020, ele arrecadou R$60 mil para combater o avanço do coronavirus em comunidades carentes e doou R$156 mil do próprio bolso para a Central Única das Favelas (Cufa). No mesmo ano, fez uma doação no valor de R$31 mil para o Instituto Socioambiental da Bacia do Alto Paraguai SOS Pantanal, uma organização não-governamental (ONG) que tem como objetivo ajudar a preservar o Pantanal.

Com tanta popularidade, Gaules também pôde alavancar a carreira de alguns amigos de velha data, como os ex-profissionais de Counter-Strike Fillipe “bt0” Moreno e Natacha “Nahzinhaa” Hessel, na Twitch. Eles fazem parte do time “Tribo Gaules” na plataforma de streaming e puderam se dedicar 100% à plataforma depois de meses criando conteúdo.

Além dos velhos amigos, Gaules notou talentos que talvez nunca tivessem se tornado celebridades da internet e dos jogos se não fosse por sua ajuda. Um dos casos mais famosos é do streamer Wesley “Lindinho”, que apareceu primeiro no programa chamado “Rinhas de Prata”, em que Gaules narrava partidas de jogadores nível prata no CS:GO.

Lindinho foi ganhando fama através das suas participações no “Rinhas de Prata” e depois de algum tempo começou a fazer streams na Twitch, contando com a ajuda de raids de Gaules e até mesmo participando de jogatinas ou transmissões de campeonatos. Com o passar do tempo, ele se tornou um dos maiores streamers do Brasil.

Outro caso de sucesso é o do estudante de Sistemas da Informação André “Liminha” Kenzo. O apelido, inspirado no assistente de palco do SBT de mesmo nome, foi dado pelo próprio Gaules, que notou que o garoto brasileiro aparecia torcendo para diversas equipes na câmera de fãs de torneios da BLAST Premier.

Liminha, no entanto, não tinha um computador bom o suficiente para fazer suas transmissões e jogar com um desempenho razoável. Ele recebeu um computador gamer com doações feitas por Gaules e FalleN e rapidamente se tornou um dos fenômenos da Twitch brasileira.

Desde que passou a fazer parte da “Tribo Gaules”, Liminha protagonizou desabafos emocionantes em transmissões de alguns dos maiores campeonatos de CS:GO no mundo, criou seu próprio talk show semanal na Twitch e recentemente ficou 24 horas ao vivo para angariar fundos para um projeto de conscientização ao autismo, pensado originalmente por Lindinho.

Como diria o próprio Gaules, “a tribo cuida da tribo” e hoje o maior streamer do Brasil conta com a ajuda de seus amigos para promover ações voluntárias.