Funcionários da Twitch teriam acusado a empresa de ignorar racismo, assédio e abuso sexual

Diversos funcionários se manifestaram, contando casos que aconteceram ao longo de muitos anos.

Imagem via Twitch

Dezesseis funcionários da Twitch se manifestaram e acusaram a empresa, agora propriedade da Amazon, de indiferença quanto a uma cultura interna de racismo, machismo, abuso sexual e assédio. O relato é da GamesIndustry.biz.

Segundo as acusações, isso teria acontecido ao logo de toda a existência da Twitch, mesmo quando ainda se chamava Justin.tv. Os funcionários alegam parcialidade, no sentido de que as mulheres não recebiam as mesmas oportunidades dos homens, além de beijos forçados, slut-shaming de streamers mulheres e importunação sexual. Certo funcionário até teria cuspido em uma colega de trabalho e a insultado com ofensas misóginas.

Twitch art streamers
Imagem via Twitch

“Era simplesmente um ambiente onde eu não me sentia segura nunca”, disse uma das mulheres à GamesIndustry.biz. “Ninguém se responsabilizava por nada e não havia ninguém em quem confiar se você fosse ameaçada, ou se sentisse ameaçada, ou fosse lesada de alguma forma. O RH com certeza não estava do lado dos funcionários… se você fosse ao RH, isso só servia para acabar com você de vez.”

Muitas das pessoas que se pronunciaram sentem que o RH da Twitch não oferece suporte aos funcionários, varre tudo para debaixo do tapete e, em alguns casos, até piora as coisas. Uma pessoa diz que sofreu retaliação física e verbal de alguém que havia denunciado ao RH, segundo a GamesIndustry.biz.

O mundo dos games e esports passou por seu próprio, e muito necessário, momento #MeToo em junho, quando a cena foi tomada por depoimentos e acusações de abuso e assédio sexual. Muitos dos acusados eram streamers da Twitch, então a empresa divulgou uma nota em que dizia estar “analisando ativamente” as acusações e dizia que iria “trabalhar com medidas judiciais quando fosse necessário”. A empresa também começou a banir permanentemente alguns streamers envolvidos em acusações mais graves.

Samantha Wong e seu marido, Justin Wong, ex-VP da Twitch, criticaram as “palavras vazias” da empresa. Segundo Samantha Wong, a Twitch havia “minimizado e feito pouco caso” do assédio sexual sofrido por ela, além de permitir que seu assediador continuasse participando de eventos. E, mesmo tendo ocupado um cargo de alto escalão, Justin Wong afirma que suas denúncias ao “RH, CEO e VP de relacionamento” foram em vão.

Em junho, o ex-diretor de parcerias estratégicas da Twitch, Hassan Bokhari, foi acusado pela streamer Vio de usar sua posição para manipulá-la, forçando atos sexuais. Bokhari foi banido permanentemente da Twitch e demitido, segundo o jornalista de esports Rod “Slasher” Breslau.

Um porta-voz da Twitch disse à GamesIndustry.biz que a empresa se dedicava a “construir comunidades” e que muitas das acusações eram “muito velhas”. Desde então, a empresa diz ter tomado “várias medidas para proteger e apoiar” os funcionários e a comunidade.

“Investimos recursos significativos no nosso RH, trazendo líderes novos e diversos e aumentando a proporção de funcionários do RH para outros funcionários, visando aumentar a inclusão e o apoio”, disse o porta-voz.

Os funcionários podem denunciar de forma anônima em um site ou linha direta que usa investigações externas à empresa para verificar as acusações e tomar as medidas necessárias.

A Twitch também foi acusada de minimizar questões de segurança em sua plataforma para minorias étnico-raciais, mulheres e outras minorias sociais, porque “quem toma as decisões é, em maioria, homem branco”, segundo um dos funcionários.

A plataforma teria ignorado discurso de ódio entre os produtores de conteúdo, além de racismo no ambiente de trabalho. Um funcionário antigo diz que precisou lutar por um ano para que “a palavra com N” fosse banida. A palavra em questão, na língua inglesa, é uma forma pejorativa de se referir a pessoas negras, quando usada por pessoas brancas.

Recentemente, a ex-gerente de produto Olivia Grace disse que havia solicitado a remoção de um emote de guaxinim que era usado para “propósitos racistas”. Emmett Shear, CEO da Twitch, teria recusado.

Artigo publicado originalmente em inglês por Andreas Stavropoulos no Dot Esports no dia 08 de outubro.