Querida comunidade de Overwatch, Fran não é seu bode expiatório

A suporte foi alvo de ódio sem motivo depois de vencer um torneio, um fenômeno que muitas mulheres na cena reconhecem.

Captura de tela via Liga Overwatch

Depois de vencer o torneio Overwatch Flash Ops: Echo Showdown ontem, o elenco estrelado do Test Team 1 recebeu elogios por suas táticas e jogadas superiores, que os renderam a premiação de 10.000 dólares.

Apesar do desempenho impressionante do time, um de seus membros tem sido alvo de ataques de ódio da comunidade de Overwatch por um simples motivo: ser mulher.

Francine “Fran” Vo, streamer da Atlanta Reign e suporte de longa data, passou as horas depois da vitória do time tendo que ler comentários machistas por parte de fãs de Overwatch. Os comentários podem ser encontrados em todo e qualquer tópico no Reddit e Twitter sobre o Test Team 1 e sobre o Flash Ops de modo geral. Comentários anônimos gritam aos quatro ventos que Fran foi “carregada” pelo time e deveria estar na reserva.

Para alguns, pode ser chocante que alguém que venceu um torneio receba esse tipo de tratamento. Para as mulheres da comunidade de Overwatch, é só mais um dia normal. Os comentários direcionados a Fran, uma das streamers e suportes mais bem-sucedidas da comunidade, representam bem a forma que parte da comunidade de Overwatch trata mulheres de modo geral.

O Test Team 1 estava, assumidamente, cheio de jogadores de alto nível. Alguns da Liga Overwatch, como Park “KariV” Young-seo e Dante “Danteh” Cruz, se juntaram ao ex-jogador da Liga Overwatch Jacob “Jake” Lyon e aos de Overwatch Contenders, James “Cloneman16” D’Arcangelo e Anthony “Harbleu” Ballo. Fran compartilhou a posição de suporte com Redshell, outro streamer popular. 

Às hordas de comentaristas anônimos de internet que disseram que Fran “não tem lugar numa seleção de alto nível” como o Test Team 1, falta uma informação crucial: ela que criou o time. Quando Connor “Avast” Prince, ex-jogador profissional, publicou um tweet criticando o comportamento da comunidade, Fran disse que ela tinha ido atrás e montado o time. Quem viu qualquer uma das streams do Flash Ops pode comprovar que Fran era a responsável por conferir as coisas antes do jogo e pela gerência.

Todo esse trabalho ainda não foi suficiente para evitar que ela virasse alvo de ataques da comunidade. Logo Fran virou o bode expiatório de todos os pequenos erros de seu time.

Captura de tela via canal da Liga Overwatch no YouTube

As semifinais e a final do torneio Flash Ops foram transmitidos no canal da Liga Overwatch no YouTube e o Test Team 1 participou das duas fases. Toda vez que o time começava a apresentar dificuldades, o bate-papo da transmissão enchia de comentários negativos em relação a Fran. “Olha a egirl”, disse um espectador, usando um termo negativo que se refere a mulheres que só jogam para aparecer. “Coloca ela na reserva e o Redshell em jogo”, pediram outros. Os comentários eram constantes e exagerados.

Compare isso aos comentários feitos para os colegas de time, todos homens. “Levem Harb à OWL”, diziam muitos, mesmo depois de uma partida difícil em Watchpoint: Gibraltar. “Danteh carrega”, gritaram outros. Apesar do desempenho incrível de Danteh com a heroína homenageada no torneio, Echo, ele foi eliminado várias vezes pelos heróis do time adversário. Os colegas de Fran jogaram humanamente bem, cometendo erros, e ela também. Mas nenhum dos homens teve que encarar uma avalanche de comentários que os acusasse de não merecer seu lugar no time ou no torneio.

Diversos profissionais atuais e aposentados da Liga Overwatch participaram do torneio Flash Ops e não chegaram nem perto das últimas rodadas. Matthew “Super” DeLisi, tanque da San Francisco Shock, e Kim “Rascal” Dong-jun, DPS, jogaram em um time com vários streamers e foram eliminados antes da final. Os campeões da Liga Overwatch 2019 foram eliminados por jogadores do Contenders. Os comentaristas ficaram estranhamente quietos.

Apesar de não ter levado o campeonato tão a sério, a equipe Plat Chat incluiu Dusttin “Dogman” Bowerman, suporte da Atlanta Reign, e os ex-jogadores profissionais Scott “Custa” Kennedy e Jonathan “Reinforce” Larsson, ao lado de apresentadores da Liga Overwatch. Eles perderam depois de apenas duas partidas e foram jogar VALORANT. Não se ouviu uma palavra sobre seu nível de talento, quanto se esforçaram pelo time ou sua habilidade em uma atmosfera competitiva.

Para as mulheres da comunidade de Overwatch, o tratamento não é nenhuma surpresa. Em todos os níveis do competitivo, as mulheres são culpadas pelos erros e falhas de seus times, não importa seu desempenho individual. Nas ranqueadas, jogadoras mulheres e até personagens femininas costumam ser ignoradas ou ouvir que não entendem do meta. Muitas mulheres se recusam a entrar no bate-papo por voz para não serem obrigadas a ouvir xingamentos gratuitos e comentários machistas dos companheiros de equipe.

Por sorte, os colegas de equipe de Fran e outros profissionais da comunidade a defenderam e enfatizaram sua dedicação e talento. O tratamento dado pela comunidade a alguém que literalmente acabou de vencer um campeonato é horrível, mas a situação está abrindo os olhos de um grande grupo de pessoas que não sabiam como o problema era generalizado.

Algumas porções grandes e barulhentas da comunidade de Overwatch se comportam como os marinheiros de outrora, que se recusavam a ter mulheres em seus navios por medo de má sorte. Quando acontecia algum desastre, os dedos eram apontados para as mulheres a bordo, ignorando quem estava de fato no leme.

Fran se recusou a ser o bode expiatório, e fez a comunidade lembrar que o time é campeão por causa de seu trabalho. As mulheres nas suas ranqueadas de Overwatch, nos seus torneios e nas suas ligas serão as próximas a rejeitar o rótulo de “bode expiatório”, lembrando que devemos olhar para a frente e não cometer mais os mesmos erros.

Artigo publicado originalmente em inglês por Liz Richardson no Dot Esports no dia 20 de abril.